Um país que está se destruindo – Artigo semanal de Alexandre Garcia

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Alexandre Garcia
Alexandre Garcia, nascido em 1940, é um dos jornalistas mais renomados do país, com passagens por diversos veículos de comunicação. Produz conteúdos para o Portal O TEMPO, jornal O TEMPO, YouTube e demais redes sociais de O TEMPO.



Esfinge e labirinto

Se fosse reduzida a jornada de trabalho para 36 horas semanais, em sete dias haveria apenas quatro de trabalho

Na comemoração dos 46 anos do PT, o presidente Lula, num desabafo, se queixou dos evangélicos: “Votam nos outros. E 90% dos evangélicos ganham benefícios do governo”. Um raciocínio de que benefício do governo deveria resultar em voto. São 49 milhões os que recebem Bolsa Família. Mas não são considerados desempregados pelo IBGE, e Lula festeja percentual de 5,1 de desemprego. Ao mesmo tempo, o presidente apoia o fim da jornada 6×1: em vez das 44 horas de trabalho citadas na Constituição, apenas 36 horas por semana, como está na proposta a ser examinada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Ideia de país esbanjando prosperidade. Como deveria ser o Brasil, com sua exuberante riqueza natural. Entre os fatores da riqueza, temos natureza exuberante; mas carecemos de capital, tecnologia e … trabalho.

Se fosse reduzida a jornada de trabalho para 36 horas semanais, em sete dias haveria apenas quatro de trabalho. Um dia a menos por semana. Por ano, 52 dias a menos de produção de riqueza; a cada dez anos, um ano e cinco meses sem trabalho – mas com a folha inalterada, pagando o que se pagava por 44 horas. Ganhar por 44 e só trabalhar 36 horas. É um paraíso, mas quem paga? O consumidor da mercadoria ou do produto, ou do serviço. Ou, quem sabe, perde quem ganha por 44 horas ao ser trocado por novos empregados com salário proporcional às 36 horas. Ou a empresa automatiza tudo, para se livrar logo dos encargos da folha, em que se paga por quase dois o salário de um. Deixa de ser empregadora. Ou troca de ramo. Ou fecha, porque entra no vermelho. Talvez vá para o Paraguai. Qualquer alternativa vai significar mais inflação, menos emprego, menos renda. Vai haver mais dias de ócio, com as tentações de mais festas, mais álcool, mais brigas.

O trabalho no país não está ameaçado apenas pela jornada menor. Os 49 milhões de Bolsas Família já estão fazendo falta na construção civil, nas colheitas de frutas, nos trabalhos braçais. Os quase R$ 700 médios de Bolsa Família têm desestimulado a procura de trabalho. Somados a outros benefícios, são suficientes para sobreviver sem precisar acordar cedo, pegar condução, cumprir horário, obedecer a ordens, fazer esforço físico, suar. Pesquisas mostram que dois terços dos entrevistados querem redução de jornada. Certamente desconhecem as consequências. Isso que 44 horas semanais é a jornada máxima, que pode ser negociada. A média, hoje, já é inferior a 39 horas.

Neste ano, serão R$ 158 bilhões dos impostos de todos para custear o benefício. Não parece justiça social uns viverem do suor dos outros. Os de carteira assinada são 39 milhões. Bolsa Família, 49 milhões, muitos desses desestimulados ao trabalho. A vitória final do programa seria quando ficasse com zero beneficiado. Todos trabalhando e gerando renda. O prefeito de Bento Gonçalves tentou: os beneficiários com saúde recebiam oferta de emprego. Mas ninguém quer perder o Bolsa Família. É de graça e não precisa trabalhar. O governo já gasta muito e tem que pedir emprestado. A dívida pública já está perto de 80% da renda do país. O que tem custo de R$ 1 trilhão de juros anuais. O Estado sustenta 53% dos brasileiros. Ou melhor, 47% sustentam o Estado e seus dependentes. Impossível dar certo. Haddad está deixando o ministério; não foi um Édipo para decifrar essa esfinge. Para substituí-lo, só um Teseu, para entrar nesse labirinto.


Fonte: https://www.otempo.com.br/opiniao/2026/2/11/esfinge-e-labirinto