O Acadêmicos de Vorcaro vai rasgar as fantasias – Artigo semanal de Alexandre Garcia na Oeste

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Agora é cinza

A Acadêmicos de Niterói abriu a campanha eleitoral com pompa e circunstância

Alexandre Garcia



O ano começou, desta vez, antes do Carnaval. Vorcaro antecipou a Quarta-feira de Cinzas e a Quaresma chegou mais cedo para seus associados. “Agora é cinza; tudo acabado e nada mais”. Trump viu o contrato do Master e recolheu a desnecessária Magnitsky. Barroso antecipou-se ao iceberg e abandonou o Titanic. Antes mesmo da Quaresma, já se entregavam às penitências o Tayayá, o Super Contrato, a Nota Barata Tonta dos Dez, a gravação da reunião secreta. Na Terça-feira Gorda, houve a expedição punitiva aos piratas da Receita e, no domingo de Carnaval, o desfile fantástico da Acadêmicos de Niterói. No Brasil, o Carnaval é a realidade sem fantasia.

A Acadêmicos de Niterói abriu a campanha eleitoral deste ano com pompa e circunstância. Só não foi melhor porque faltou a primeira-dama Janja no último carro, e os ministros, que já haviam participado dos ensaios, recolheram-se ao camarote, frustrando uma apoteótica entrada triunfal na Sapucaí, como em Roma, na Aída de Verdi. Recolheram-se, Janja e os ministros, graças aos alertas — pasmem — não de diligentes conselheiros do governo, do PT e de Lula, mas de gente da oposição, com pressa nervosa, que clamava aos quatro ventos que seria um absurdo campanha eleitoral disfarçada de Carnaval, e que Lula poderia ficar inelegível, cometendo crime eleitoral por campanha antes de agosto. A senadora Damares entrou na Justiça Federal, o Novo recorreu ao TSE para impedir o desfile. A presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, respondeu que não poderia sancionar um crime se ele ainda não aconteceu. Nem só desta vez, como fez com a Brasil Paralelo no segundo turno de 2022. Nenhum deles pensou no óbvio, de que não se interrompe o adversário enquanto ele estiver cometendo erros. (Nem se estimula o adversário a continuar, porque senão ele desconfia.)

Acadêmicos de Niterói abriu a campanha eleitoral deste ano com pompa e circunstância | Foto: Reprodução/Acadêmicos de Niterói

Pois Lula ouviu os altruístas conselhos de seus adversários e cortou o exibicionismo de Janja e o voluntarismo de seus ministros. Se tivessem integrado a Acadêmicos de Niterói no domingo à noite, seriam o elo entre o governo Lula e a propaganda eleitoral. Janja, o elo pessoal, e os ministros, o elo institucional. Os afobados políticos e influenciadores de oposição fizeram Lula se precaver. Mesmo assim, o estrago foi grande. Enlataram os religiosos, as famílias — enlataram e satirizaram, além da direita, o Centrão — o fiel da balança eleitoral. Se Lula pensava em atrair o MDB para vice, perdeu, após a escola mostrar Temer arrancando a faixa presidencial de Dilma. E, se ações judiciais podem ficar limitadas à Acadêmicos — que não é candidata — as consequências nas decisões de voto desabam sobre Lula. O boneco de Lula despencando no chão ao final do desfile é um símbolo muito forte. A escola e Lula foram rebaixados naquela noite. Mesmo com a ajuda de uma insensata oposição, foi suficiente a insensatez de aceitar um cordão dos puxa-sacos. A escola corre o risco de desfilar no nível ouro ano que vem com um tema tipo “Perdeu, mané!”. A Acadêmicos politizou o carnaval e gerou prejuízos políticos. A revelação de que a escola recebeu mais dinheiro público que as outras, e que o enredo passou por visitas do presidente da escola ao Palácio do Planalto e por visitas de Janja e da ministra Anielle Franco à sede da escola, em Niterói, como foi divulgado, vai ser um ingrediente forte nos argumentos dos que vão se queixar à Justiça Eleitoral.

Lula ouviu os altruístas conselhos de seus adversários e cortou o exibicionismo de Janja e o voluntarismo de seus ministros | Foto: Reprodução/Acadêmicos de Niterói

 

Já a Acadêmicos do Vorcaro vai continuar na avenida, estimulada pela bateria de cinco celulares. E o TCU quer investigar festinhas em Trancoso, com autoridades financeiras do Executivo. Dizem que Lula deu carta branca para o diretor da PF. Imagine noticiar isso em tempos de Bolsonaro, que nem diretor da PF pode nomear. Quem dá carta branca é porque, reciprocamente, tem poder de veto. No Reino Unido, na Inglaterra da Magna Carta de 1215, o irmão do rei, Andrew, foi preso por má conduta em representação pública. Foi por relação com o Vorcaro americano e seus trancosos. O fato nos recorda que os governistas não deixaram o irmão e o filho de Lula serem convocados na CPMI do desvio gigante dos velhinhos da Previdência.

Andrew Mountbatten-Windsor, irmão mais novo do rei Charles da Grã-Bretanha, deixa a delegacia de polícia de Aylsham em um veículo, no dia em que foi preso sob suspeita de má conduta em cargo público, após o Departamento de Justiça dos EUA divulgar mais registros ligados ao falecido financista e criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein, em Aylsham, Grã-Bretanha, 19 de fevereiro de 2026 | Foto: Reuters/Phil Noble

No Supremo, a “nota oficial dos dez ministros” é o retrato da barata tonta que anda por lá. A desconfiança está implodindo o espírito de corpo que os protegia. Um espírito de porco gravou a reunião secreta e divulgou frases pinçadas por seu interesse pessoal. Ajudou a dividir. Metade não gostou da súbita ação de Moraes para descobrir quem entregou o contrato com o Master. Em vez de explicar que serviços gigantescos foram prestados ao custo de R$ 3,6 milhões por mês, quer saber quem entregou. Será que não sabe que a Receita não arquiva contratos? Arquiva as rendas dos contratos, não suas cláusulas, divulgadas pela Malu Gaspar. Aliás, a Constituição fala em publicidade no setor público; aí, o sigilo financeiro da família fica relativo. Para quem nada tem a esconder, as finanças da família são “um livro aberto”.

E agora Moraes deve ter ficado com saudades dos outros carnavais, em que ele punha os “antidemocráticos” sob a toga do Inquérito do Fim do Mundo. Bolsonaro preso, a mídia desfez a parceria com o Supremo e está retomando o jornalismo. Com atraso de sete anos, descobre o que nunca vira em tempos de cruzada conjunta contra Bolsonaro: que a ação contra os auditores fiscais que teriam acessado contas de ministros do Supremo e seus parentes é totalmente inconstitucional. Que o Inquérito do Fim do Mundo é inconstitucional, que um juiz não pode abrir inquérito para proteger sua própria mulher, que pessoas sem foro privilegiado — como são parentes de supremos e funcionários da Receita não podem estar em inquérito do Supremo, que só se tira passaporte ou impõe tornozeleira e se quebra sigilo se há indícios, no inquérito, que exijam essas cautelares; talvez esteja lembrando que a Receita não deve ousar fiscalizar as rendas de escritórios de advocacia de famílias de supremos ministros; ou seja para mostrar de novo o Supremo agredido, vítima, no exercício da proteção à democracia… Esse chavão não pegou mais, ao contrário dos carnavais passados. Mas, sem saber que a era terminou, como informou ao Metrópoles um “ministro influente” do Supremo, “agora Moraes vai pra cima da imprensa, de banqueiros, do Executivo”, revelando a normalização do poder absoluto. Fantasias caindo para a mídia que alimentou e encorajou o supremo-absoluto e agora percebe que pode também ser engolida por ele.

Vorcaro confirma que estará no Congresso na segunda-feira. Ah, como é triste lembrar o que fizeram com os depoimentos de Joesley, Marcelo Odebrecht, Palocci, Paulo Roberto Costa (Petrobras). Será que ainda resta esperança para o brasileiro? Esperança no relator André? Mas ele assinou a nota, de 12 de fevereiro, afirmando que Toffoli está acima de qualquer suspeita. Se o relator está refém desse nada consta, a alternativa é o julgamento político, no Congresso. Os achados da PF podem abastecer uma comissão de inquérito e esta fornecer as provas para julgamentos no Senado. Se Alcolumbre deixar. Ele está jogando cinzas sobre a cabeça desde que o tesoureiro de campanha foi atingido pelo Master na Previdência do Amapá. Além disso, presidentes de partido, como Ciro Nogueira e Antônio Rueda, parecem preocupados com as memórias de Vorcaro. Se Alcolumbre protelar, estará estimulando uma campanha para encher o Senado de novos senadores que queiram justiça. E, neste pós-Carnaval, o ano eleitoral vai misturar tudo isso.

Daniel Vorcaro ficou preso por 10 dias | Foto: Reprodução/Banco Master

Nunca antes tivemos um Carnaval assim. Está tudo se despejando na avenida brasileira, à espera do rebaixamento. Todos se expõem, querem esconder, desconfiam, perdem a cautela. O presidente Lula saiu na avenida vestido de Lula, todo de branco, fantasiado de Lula. E depois sua imagem despencou. País do Carnaval e do futebol. Dino já sentenciou que é Supremo Futebol Clube. E o Carnaval dos três Poderes vira uma passarela dos nossos males, hipocrisias, engodos, fingimentos. O pior engano é quando nós mesmos queremos nos enganar.

 


Fonte: https://revistaoeste.com/revista/edicao-310/agora-e-cinza/