Chegou a hora dos que se venderam a um master – Alexandre Garcia | Artigo Oeste
Compartilhar
Midas e os venais
Lamentamos, mas a reprodução de conteúdo desta página não é permitida.
Alexandre Garcia
Midas, o rei da Frígia, ambicioso, pediu tanto por riqueza a Dionísio, que o deus da mitologia grega decidiu atendê-lo e castigá-lo. Tudo o que tocasse viraria ouro. Vorcaro, o nosso Midas, encontrou no Brasil o lugar ideal para essa alquimia: um país com muitos venais. Encontrou gente à venda no Supremo, no Banco Central, na Câmara, no Senado, nos meios de informação, no serviço público em geral. Comprou-os. A compra de consciências venais foi tanta que o seu banco entrou em liquidação. O preço de pessoas liquidadas acabou liquidando o próprio comprador. Sem vergonha na cara, os comprados ainda pensam que não foram desnudados pelos fatos e fazem olhar de paisagem. Talvez estejam na esperança de um milagre. Melhor abandonar toda a esperança, porque apenas apareceu a ponta do iceberg. O striptease só começou.
Midas tocou em sua filha amada e ela virou estátua de ouro. Imagino o momento em que Vorcaro tocou seu cálice no cálice de Moraes e o escritório da família virou ouro de 129 milhões de quilates. Vorcaro e Toffoli se tocaram e uma mina de ouro surgiu num resort. Diretores do Banco Central não se contentaram com o bom salário e viraram estátuas de ouro. O brilho de R$ 2,2 bilhões que Vorcaro transferiu para o pai dele deve ter ofuscado os olhos do Coaf, sempre atentos a transferências de R$ 50 mil. Sobre a linha do Equador, Midas atraiu a riqueza de funcionários do Amapá, de onde extraiu um veio de R$ 440 milhões. Baco, o correspondente latino do grego Dionísio, deve ter amaldiçoado no Panteon romano a Auri sacra fames! (“Sagrada fome de ouro!”).
Ilustração de Midas, de A Wonder Book, por Arthur Rackham (1922) | Foto: Domínio Público
E veio a maldição. Tudo o que foi escondido, blindado, assinado, negado, silenciado, agora faz provas contra quem assinou contrato, fez sociedades, recebeu dinheiro, negou, se omitiu, prevaricou, manobrou — agora brilha como ouro da verdade, com claridade atroz, terrivelmente real diante dos brasileiros. Não era apenas um banco de espertalhão que foi liquidado, era mais. Chamavam-se de A Turma, mas era mais. Movimentações financeiras graúdas, compra de autoridades e funcionários, negócios ilícitos às custas de multidões ingênuas, ameaças e intimidações, contratação de sicário — todas as características de máfia. O Midas também era Il Padrino. Essa Cosa Nostra brasiliana está estabelecida nos Três Poderes e ainda não foi extirpada.
Estavam segurando o que começara a ruir com a revelação do contrato de R$ 129 milhões — que fala por si, é evidente — e as lavagens no Tayayá e na tal Maridt (Marília Dias Toffoli). O ministro Toffoli fez das tripas coração para esconder as investigações da Polícia Federal. Congelou-as, tornando-se relator; blindou com segredo absoluto os achados em buscas e apreensões. O Supremo ainda tentou, inútil e puerilmente, manter as aparências, mas já não dava para sustentar Toffoli como relator de um caso em que ele é um dos personagens. Caiu nas mãos de André Mendonça, doutor em Direito na Universidade de Salamanca, onde produziu tese sobre a prova em casos de corrupção. Um juiz que também é pastor que prega a resistência às tentações. Foi o amanhecer depois da escuridão. Com o ministro André Mendonça, fez-se a luz.
Ministro André Mendonça em Sessão Plenária do STF (26/2/2026) | Foto: Victor Piemonte/STF
A diferença entre o relator Toffoli e o relator Mendonça é eloquente; a atuação de um e a de outro já é comprovante suficiente. E, assim como essa simples mudança jogou luz sobre o Midas brasileiro, força também perguntar: o que fez o Supremo durante esse tempo todo? Questionou o contrato por absurdo? Por que Gilmar inventou uma manobra para evitar a quebra de sigilo dos irmãos Toffoli e da Maridt, invadindo o juiz natural Mendonça? Por que Dino evitou a quebra de sigilo de Roberta Luchsinger, elo entre Lulinha e o Careca do INSS, também avançando sobre o juiz natural Mendonça? O que tem feito o presidente do Supremo diante de tudo isso? Por que que a PGR julgou desnecessário prender os quatro mafiosos, mantendo em risco a integridade física do jornalista Lauro Jardim e da secretária Mônica (“moer essa vagabunda”)? Por que o presidente Alcolumbre impede que o Senado cumpra seu dever de investigar ministros do Supremo? Onde estavam todos esses quando as luzes se apagaram? E o silêncio do presidente da República diante do gigantismo desse escândalo?
O brilho ofuscante dos fatos acordou a mídia que estava anestesiada por sete anos, na ânsia de anular bolsonaristas. Agora percebem que omissão não é apenas tirar a voz dos que foram censurados, mas agora também os dentes. Hoje percebem que um inquérito ilegal tirou o Brasil do devido processo legal por sete anos e serviu para camuflar a venda de consciências em troca do ouro de Midas. Foi maldição. Os deuses enlouquecem aqueles a quem querem destruir. Os tocados por Midas, confiantes, assinam contratos. Ambiciosos, empreendem além de seu contracheque. Insensatos, expõem-se negando, encobrindo, blindando. A conta chega, se a mídia não calar de novo; se o povo outra vez não se paralisar de medo. Chegou a conta para os que deveriam estar a serviço do povo, mas se venderam a um master.